Divagações Surreais (de Saulo Oliveira)

voar...

Acordei meio mal humorado. Fui ao espelho e, diante de minha imagem refletida, perguntei ao silêncio: “Será que não dava para ver minha alma? Mas... será que eu tenho alma? Será que todos têm uma? O que é a alma?” Gostaria de ver no espelho não a minha imagem refletida, mas o que existe dentro dela. Não um organismo, mas a visão de um algum lugar dentro de mim que não consigo precisar onde seja e qual sua função. Se existe alma, existe alma boa e ruim?

Essas dúvidas logo me remetem a Deus e tenho um sobressalto. Boa ou ruim. Ter ou não alma. Animal tem alma? Ou é só um privilégio dos homens? A origem do sobressalto residia na seguinte questão: se Deus criou tudo o que existe sobre a face da Terra, se não caiu ou nasceu um fio de cabelo sequer sem sua expressa vontade, se Deus fez o homem à própria imagem e semelhança, quem criou o mal sobre o mundo? A pergunta me estremece e me faz refletir.

 

Recosto-me na cama e parece que adormeço novamente, nem sei. Acho que foi um sonho. Via duas metades de uma mesma pessoa, ou de um vulto sob a forma de pessoa, e cada metade era uma pessoa inteira. Olhei a primeira. Primeira? Primeira metade ou primeira pessoa? Não importa. Bonita, brilhante, glamourosa. Ao me aproximar, notei que era uma espécie de construtor, um construtor de águias prateadas. Pelo que via no sonho, poderia se dizer que o personagem era admirado e invejado. Olhei para o alto e vi várias águias prateadas, iguais às dos desenhos que o "construtor" carregava embaixo do braço. Outro detalhe também me chamou a atenção: a águia precisava de alguém para conduzi-la, ora à esquerda, ora à direita, em mergulho ou subindo. Vi também um outro pássaro, uma gaivota, maravilhosa. Esta não havia sido desenhada ou projetada por mãos humanas e nem precisava de condutor ou mentor. Voava altaneira, flutuava e lançava-se em mergulhos velozes, com constantes mudanças de rotas. Planava e navegava livremente, sem ninguém a determinar sua rota. Era uma espécie de Fernão Capelo Gaivota revisitado.

Neste momento, percebi que o construtor também desviou sua atenção para a gaivota e, como que hipnotizado, passou a acompanhar o percurso do pássaro livre, esquecendo-se completamente das águias prateadas, que tinham sua direção determinada previamente por um agente estranho a elas. Tamanha foi a afinidade entre eles, homem e gaivota, que não pude evitar um pensamento brincalhão. Amor à primeira vista? Ou será que, no passado, os dois foram gaivotas que rasgavam os céus juntos. Ou então eram, ambos, seres humanos ligados por uma corrente indestrutível e atemporal: o amor. Em meu sonho, não resisti a idéia de chegar junto daquela metade ou todo, e, enquanto todos reverenciavam seu talento e exaltavam sua inteligência, o homem, alheio aos cumprimentos e embevecido, parecia dançar ao movimento da gaivota bonita, sem perdê-la um só momento de vista. 

Perto dele, pude sentir que algo o envolvia, algo diferente e esquisito, algo como uma resina. Não resisti e o toquei, raspando levemente seus braços. Era realmente resina, um verniz que encobria completamente não só a sua pele mas todo o seu ser. Toquei e raspei seus lábios e, diferentemente daquele largo e vaidoso sorriso ao mundo exterior, eu digo que o vi sorrir para mim, através da fresta que fiz e que retirou-lhe o verniz. Havia um queixume e um lamento de tristeza nesse sorriso. 

Voltei-me então para a outra metade ou todo de pessoa. Nessa hora, fui despertado por uma gritaria na frente da casa. Um grupo de garotos fazia uma terrível algazarra, jogando futebol, brincando de correr. Corriam uns atrás dos outros e, entre eles, alguns adultos brincavam também, rolando pela grama, simulando lutas, fazendo cócegas. Abraçados seguiam, emitindo altas e sonoras risadas, que denunciavam o prazer de estarem juntos, o gosto de fazer o que faziam. E eu, que correra à porta para protestar contra a interrupção do meu sonho, envergonhei-me do mau humor que sentia em contraste com aquela alegria e espontaneidade a desfilar sob meus olhos. 

Enquanto observava-os, meu olhar vislumbrou, de súbito, uma pessoa naquele grupo. Era o mais risonho e feliz entre eles, um conhecido de vista, que sempre encontrava em roda de amigos, pagodes, futebol de praia, pescaria e etc. Sempre alegre e brincalhão, parecia-me, a uma primeira análise, um tipo meio "banda voou " (termo que designa um indivíduo simultaneamente simpático e irresponsável, uma pessoa que não está nem aí pro azar, como também se diz aqui). Fugião era o nome dele, isso mesmo. Fugião. Assustei-me de novo. Acho que esse dia vai ser designado por mim como o Sexta Feira 13. 

Pois não é que a primeira metade da pessoa imaginária guardava alguma semelhança com aquele tal de Fugião? Divagava eu nesses pensamentos, quando no ar passou uma gaivota e ele voltou o olhar enternecido para o que via, acenando até que a gaivota se perdesse no horizonte - não sem antes rodar em círculos, quase sobre sua cabeça. Corri rápido para dentro de casa e coloquei o termômetro. Felizmente sem febre. Voltei e lá estava ele. Aproximei-me e olhei-o fixamente. Concluí que, sem dúvida, havia algo de comum entre eles. De muito comum. 

Como sou um exímio desenhista, modéstia à parte, saquei de lápis e papel e comecei a desenhar freneticamente aquela primeira metade bonita e glamourosa. Coloquei, inclusive, verniz sobre sua imagem. Ao lado, desenhei a imagem do Fugião, descalço, bermudão, boné de aba virada para trás e camiseta branca barata, exatamente como ele se vestia naquele momento. 

Feito isso, passei a remover lentamente o verniz que havia colocado sobre o desenho da primeira imagem. A cada pequena remoção, olhava para o desenho de Fugião. Removida a última película de resina, vi que as duas imagens eram exatamente iguais. O glamouroso sem o verniz era Fugião. Tentei então tentei o inverso. Colocar verniz na imagem de Fugião Não consegui. E, por mais que me esforçasse e me desesperasse, a imagem de Fugião não aceitava de forma alguma o verniz que eu queria impor. 

No dia seguinte, estava eu na praia quando me deparei com Fugião, como sempre, sorridente. De repente, despontando do horizonte, num vôo certeiro como raio e silencioso como quem corta o vento, surge a gaivota. Vejo-a voar em direção a Fugião e soltar um papel, que cai em seu colo. Perguntei se podia ver e copiar. Ele respondeu: “Pode ficar pra você! Todos os dias eu recebo uma igual.” 

Levei o papel para casa e li. Era uma mensagem de autor desconhecido, que creio – por talvez andar à beira da loucura – ter sido escrita pela própria gaivota. Dizia assim: 

"Se um dia sentir falta de pureza e alegria, olhe nos olhos de uma criança. Pureza e alegria moram lá. Naqueles olhinhos brilhantes como bolas de gude, que reluzem porque ainda não conhecem as indagações ou preocupações com o amanhã. O amanhã é o futebol, a boneca, o pão, a bicicleta, a brincadeira ainda não brincada... Na infância, conhecemos o sublime significado da felicidade. Felicidade de roupa suja e rasgada, de pega-ladrão, de esconde-esconde, daquelas horas que o tempo esqueceu de marcar, do caminhãozinho de madeira, da pipa colorida, do jogo de dados, do pão fresco com manteiga..." 

A alma deve ter esse semblante, que o espelho não alcança.

 


 

março/2004